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Seu filho usou IA para fazer a redação. O que você sentiu?

Imagine a cena.

Seu filho chega até você animado, mostrando a redação que a inteligência artificial criou para ele. Um texto impecável. Ele está cheio de orgulho. "Com essa redação eu mereço um 10!"

E você sente aquele frio na espinha.

Uma mistura de admiração e desconfiança. Você não sabe se elogia a engenhosidade ou se proíbe o que parece ser uma nova forma de cola. Não sabe se está vendo o futuro ou um atalho perigoso que pode atrofiar o pensamento.

A sensação mais incômoda de todas: não saber como agir.

Você não está sozinho nesse território

Esse desconforto tem um nome. Não é falta de amor, nem descuido. É perda de referência.

Durante décadas, educar foi um exercício de transmissão. A escola ensinava o que sabia. A família orientava a partir da experiência. O mundo mudava, mas mudava devagar.

Esse mundo acabou. E o que mais me preocupa: ele acabou em silêncio.

Hoje, crianças e jovens dominam ferramentas que adultos ainda tentam entender. Pela primeira vez na história recente, pais e educadores deixaram de ser a principal fonte de mediação entre os jovens e o mundo.

Uma pesquisa do Barna Group revelou um dado que me parou: 72% dos pais estão preocupados com o impacto da IA na vida dos filhos. Mas apenas 17% estão ativamente buscando informação para lidar com isso.

Não é falta de amor. É paralisia diante de um problema que parece grande demais, técnico demais.

Proibir ou deixar acontecer: as duas respostas que não funcionam

Visitando escolas e conversando com famílias, vejo dois padrões se repetindo.

O primeiro: a proibição. Bloquear, restringir, proibir sem explicar. A resposta mais fácil, mas não a mais inteligente. O jovem continua usando. Só que agora, escondido.

O segundo: a omissão. "Deixa, é o futuro." A liberação sem critério, sem conversa, sem orientação.

Entre esses dois extremos existe um terceiro caminho. Mais difícil, sim. Mas muito mais necessário.

Eu também já estive nesse impasse. Me peguei proibindo meus filhos de usar ferramentas de IA sem nem explicar o porquê. Era medo, não estratégia. Foi essa experiência que me mostrou que precisamos de método, não de proibições cegas.

O papel que só você pode ocupar

A inteligência artificial, usada com consciência, amplifica a inteligência humana. Liberta das tarefas repetitivas para que nos concentremos no que realmente importa: pensar criticamente, criar com originalidade, conectar com empatia.

Mas um superpoder sem orientação pode ser tão perigoso quanto libertador.

É aí que você entra. Não como fiscal. Como guia.

A ameaça não é a IA. É o pânico. É a omissão. É o improviso.

Pais e educadores que decidem entender antes de reagir são os que conseguem transformar a ansiedade em repertório, e a dúvida em ação.

Por onde começar esta semana

Um passo pequeno e concreto.

Pergunte ao seu filho ou aluno qual ferramenta de IA ele mais usa e por quê. Apenas ouça. Sem julgamento. Anote o que ele disser.

Ao se aproximar do mundo digital de quem você orienta, você já está dando o primeiro passo. Da fiscalização para a orientação. Do medo para a presença.

O futuro não será construído por quem tem mais respostas. Será construído por quem fez as perguntas certas, no momento certo.

Fontes:

Barna Group. (2024). Parents Worry About AI But Know Little About It. Disponível em: https://www.barna.com/research/parents-ai/

Dehaene, S. (2020). How We Learn: Why Brains Learn Better Than Any Machine... for Now. Viking.

Sandro Bonás é pai, educador e especialista em letramento em IA. É autor de "IA Sem Pânico: para pais e educadores ensinarem crianças destemidas" (Editora Gente, maio de 2026). Toda semana, escreve sobre inteligência artificial, educação e família na newsletter guIA. [Assine gratuitamente →]