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IA vai substituir profissões? Por que a pergunta que fazemos aos filhos está errada

Num sábado de manhã, entre um salto e outro dos cavalos numa aula de hipismo, um pai me confessou a indignação: o filho havia dito que queria fazer faculdade de jornalismo. Ele havia obrigado o filho a mudar de decisão. "Essa profissão vai morrer com a IA. A única carreira segura é medicina."

Medicina é uma carreira linda. Mas será mesmo a única protegida? E será que a questão toda é mesmo essa?

Se você tem filhos adolescentes, provavelmente já teve uma versão dessa conversa. E provavelmente já sentiu aquele desconforto de querer orientar sem saber ao certo para onde.

A pergunta que está errada desde o início

Uma pesquisa recente da Common Sense Media revelou o que muitos pais sentem em silêncio: 53% temem que a IA restrinja as oportunidades de trabalho dos filhos, e 55% acreditam que seus filhos simplesmente não estão preparados para o mercado que a IA está criando.

Esse medo é legítimo. Mas ele pode estar nos fazendo mirar no alvo errado.

Nossa ansiedade está concentrada no que a IA pode destruir. E estamos deixando de ver o que ela está criando. O Fórum Econômico Mundial estima que a IA vai impactar cerca de 92 milhões de profissões até 2030. Mas, ao mesmo tempo, criará aproximadamente 170 milhões de novos postos de trabalho, um saldo líquido positivo de 78 milhões de empregos. O problema é que não sabemos ainda o nome que a maioria dessas profissões vai ter.

E é aí que está a armadilha.

Profissões são rótulos temporários. Comportamentos, não.

Pense no datilógrafo, no operador de telefonia, no revelador de fotos. Eram profissões vitais que hoje soam como peças de museu. O que extinguiu essas carreiras não foi a falta de competência de quem as exercia. Foi a mudança das ferramentas e dos problemas que precisavam ser resolvidos.

Profissões são pacotes temporários de soluções para problemas de uma determinada época. As ferramentas mudam. Os problemas, não acabam.

O que vai permitir que nossos filhos transitem de uma profissão para outra não é o domínio de uma ferramenta específica. É a capacidade de identificar problemas e criar soluções para eles. Ferramentas se aprendem em semanas. Comportamentos se constroem ao longo de anos.

O dia em que deveremos nos preocupar de verdade é o dia em que o mundo ficar sem problemas. E a gente está muito longe disso.

O paradoxo da superproteção

Na ânsia de preparar nossos filhos para um futuro competitivo, fazemos algo que produz o efeito oposto ao que queremos. Matriculamos em inúmeros cursos, exigimos as melhores notas, e para que eles "deem conta de tudo", fazemos todo o resto por eles. Limpamos o caminho.

Tiramos deles as responsabilidades do mundo real: as tarefas domésticas, a cooperação na rotina da casa, a resolução dos pequenos perrengues do dia a dia. Criamos jovens com agendas externas cheias, mas confinados em seus quartos, especialistas em telas e com pouquíssima disposição para agir no mundo físico. Eles sabem operar um aplicativo, mas nunca precisaram resolver um problema real que afetasse outras pessoas.

A psicóloga infantil Ana Aznar alerta que essa superproteção está criando uma geração com baixa tolerância à frustração. Ao limpar o caminho de obstáculos, impedimos que a criança desenvolva a capacidade de lidar com a adversidade. E a adversidade é a matéria-prima de quem resolve problemas.

Queremos preparar nossos filhos para o futuro, mas estamos sufocando exatamente os comportamentos que serão o diferencial nesse futuro: iniciativa, responsabilidade, a capacidade de cooperar e de arregaçar as mangas.

Dois comportamentos que nenhuma IA substitui

Empatia. A IA pode processar dados sobre solidão em idosos. Mas não pode sentir a solidão de um avô que passa o dia inteiro sozinho. Quem aprende a se importar, aprende a enxergar problemas. E quem enxerga problemas, nunca ficará sem trabalho. Na prática: envolva seu filho em situações reais. Uma ação assistencial, o convívio com realidades diferentes da sua. Não como atividade extracurricular. Como parte da vida.

Iniciativa. O famoso Estudo de Harvard, que acompanhou pessoas por 85 anos, concluiu que um dos maiores indicadores de sucesso profissional e felicidade na vida adulta era ter feito tarefas domésticas na infância. Lavar a louça, arrumar o quarto, ajudar a cozinhar. Parece simples demais, porque é. É nessas pequenas ações que se aprende responsabilidade e a mentalidade de "eu faço parte da solução". Exatamente o que a IA não substitui.

Mude a pergunta esta semana

A solução começa com duas mudanças simples.

Primeiro, troque a pergunta. Em vez de "o que você quer ser quando crescer?", pergunte: "O que existe no mundo que te incomoda? Se você pudesse consertar uma única coisa, o que seria?" A resposta pode não ser uma profissão. Mas pode ser o início de uma missão.

Segundo, entregue uma responsabilidade real. Algo que precise ser feito, que tenha impacto na família. Não faça por ele. Deixe-o resolver.

O futuro não pertence aos que têm uma profissão. Pertence aos que têm uma missão. E essa capacidade não vem de um curso. Vem de anos aprendendo a se importar, a criar e a agir.

A resposta para o futuro do trabalho pode estar na pia cheia de louça.

Sandro Bonás é pai, educador e especialista em letramento em IA. É autor de "IA Sem Pânico: para pais e educadores ensinarem crianças destemidas" (Editora Gente, maio de 2026).

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